| Conferência
sobre a Técnica da Máscara
Texto para Mascararte, Bragança 2005
A Técnica da Máscara é uma disciplina relativamente
recente da formação do actor (as primeiras sistematizações
deste método datam do início do séc. XX, com
o encenador Jacques Coppeau em França) que se continua a
afirmar nos nossos dias como uma das Escolas mais exigentes e completas
para o trabalho do actor. A Máscara é o utensílio
teatral e de eleição desta disciplina teatral, obrigando
o actor a um trabalho prático e teórico bastante abrangente,
que o prepara para todos os géneros de representação
teatral.
As suas fontes de inspiração são o Teatro
Grego e Romano, no Ocidente, bem como a Commedia dell’Arte,
género representativo do Renascimento Ocidental, que permanece
como o mais recente momento da história do Teatro Ocidental
em que a máscara assume uma relevância que a coloca
no centro da representação teatral. A utilização
ritual da máscara e a sua continuada utilização
nas representações de Teatro Tradicional Popular,
em particular no Oriente (Japão, Indonésia, China
ou Índia, entre outras culturas orientais, onde o teatro
aparece associado à máscara), são outras fontes
de inspiração deste método de formação
do actor.
Na Europa, como nas restantes partes do mundo pré-civilizado,
a máscara aparece intimamente ligada ao Ritual e às
celebrações pagãs do nascimento, passagem da
infância à idade adulta, morte, matrimónio,
etc. Algumas destas manifestações persistem ainda
hoje em dia, em Portugal a tradição dos Caretos e
outras máscaras do Nordeste Transmontano são exemplo
disso, tradições espalhadas um pouco por toda a Europa
e que também encontramos nas outras culturas. Em África,
em particular, quase toda a utilização da máscara
está ligada ao ritual, sendo este o caso também de
alguns países da América Latina.
A Máscara Ritual pode ser utilizada dentro do seu contexto
ou eventualmente adaptada à formação do actor
de teatro e utilizada em representações contemporâneas.
Não deixa de ser no entanto uma máscara que representa
de um modo geral seres sobrenaturais, como deuses ou demónios,
animais ou figuras arquetípicas. A sua representação
passa pela compreensão da sua função, que normalmente
consistia em evocar o poder sobrenatural dos espíritos e,
ou, a sua condescendência ou intervenção no
plano terrestre. Esta utilização da máscara
primitiva associava-a ao medo do sobrenatural e do desconhecido,
tendo aí a sua origem as funções mais primárias
da máscara: o terror e a desrazão, ou o riso, como
forma de exorcizar o terror. Assim nascem as duas primeiras máscaras,
a Tragédia e a Comédia.
Com o advento da civilização, a máscara deixa
de ser vista como objecto de terror, reservada a momentos de celebração
ritual, para ser apreciada como obra de arte e utilizada em representações
com o único objectivo da fruição artística.
Assim nasce o Teatro que, no Ocidente, conhece o seu primeiro desenvolvimento
com as Culturas Clássicas, Greco-Romanas. Após um
interregno que dura até à Idade Média, o Teatro
ressurge na Europa Ocidental, com um outro momento histórico,
a Commedia dell’Arte, onde a máscara assume um papel
fundamental na caracterização de tipos fixos de personagens.
Estes dois momentos da Civilização Ocidental marcam
também a utilização imprescindível da
máscara na representação teatral Ocidental
e as principais referências para o trabalho de formação
do actor pela Técnica da Máscara.
No início do séc. XX, Jacques Coppeau, um encenador
Francês com formação no Teatro Universitário,
inicia uma reforma estética que incide principalmente na
preparação do actor, onde o estudo e a utilização
da máscara se torna fundamental. Coppeau inventa a Máscara
Neutra, ou Nobre, uma máscara que vai servir de base à
preparação do actor que se inicia à máscara.
Esta máscara inspira-se nos Coros da Tragédia Grega
e assume um carácter universal, como conceito de um grau
zero da escrita teatral, do ponto de vista do actor. Uma máscara
que por princípio é neutra, ou seja, não representa
nenhuma emoção ou sentimento e generaliza o conceito
do ser humano, exige uma representação também
ela depurada e geral, obrigando o actor a uma disciplina física
e intelectual de base.
A Máscara Neutra introduz o conceito de Máscara e
uma disciplina para a abordagem de outras máscaras, nomeadamente
Máscaras Inteiras Expressivas, Máscaras Larvares e
Meias-Máscaras. As Máscaras Inteiras cobrem o rosto
todo e não permitem a fala, sendo por esse motivo, máscaras
mais adaptadas ao trabalho gestual e físico. As Máscaras
Neutras são também máscaras inteiras, que tal
como as Larvares, impõem ao actor uma representação
silenciosa, embora as Larvares remetam já para um estado
pré-expressivo. Nas Máscaras Expressivas Inteiras
o sentido da representação mímica e silenciosa,
mantém-se, só sendo alterada com as meias máscaras,
nomeadamente de Commedia dell’Arte que já permitem
e implicam a fala.
A Commedia dell’Arte propõe já um conjunto
de caracteres fixos, reflectindo uma organização do
universo humano cristalizada em classes sociais, organizadas segundo
relações de poder: senhores e criados, apaixonados,
aventureiros, comerciantes, soldados. Cada Máscara representa
um universo de personagens que se referenciam a cada tipo, sendo
que um Pantalone, por exemplo, é sempre um velho rico e poderoso,
mesmo que se encontre temporariamente na miséria, assim como
um Arlequim é sempre um criado pobre e faminto, ao serviço
de alguém ou temporariamente desempregado.
A Commedia dell’Arte propõe um conjunto de cerca de
uma dúzia de personagens fixas, que permitem múltiplas
variações, extremamente codificadas e obedecendo a
uma arquitectura teatral lógica e coerente. Os comediantes
dell’arte improvisavam e criavam os seus próprios textos
com base nesta estrutura de representação teatral,
mantendo viva uma tradição teatral que só desapareceu
quando começou a ser substituída pelo texto teatral
escrito.
Esta é pois uma forma de representação mais
tradicional e que sempre foi popular, embora tenha conquistado o
universo intelectual renascentista, que se mantém e impõe
como referência para uma escola de formação
do actor, dando-lhe informação e um método
de referência apoiado em leis e regras gerais e comuns a toda
a representação teatral.
A Máscara permanece para o actor com um objecto sagrado,
um instrumento da representação teatral com o qual
pode aprender e do qual pode tirar partido para a sua arte.
Filipe Crawford
*A Conferência é acompanhada com demonstrações
práticas e exercícios com máscaras Neutras,
Larvares e Expressivas.
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